quarta-feira, julho 22, 2015

Amanhã é 23.


 Era terra. Terra que se espalhava por toda parte, fazendo desse dia um dia terroso. Não importava muito se fazia qualquer sentido a narrativa da garota. Ela estava tão absorta em seus afazeres minúsculos que não se importava se a terra lhe transformasse em terra. A única coisa que conseguia raciocinar e juntar peças era raiva. "Como pode as coisas serem assim?" pensava sem parar. Sem parar e sem parar e sem parar. Gritava para uma imensidão de si quase impossível. Ninguém a percebia, como de costume. Existia um sentimento de não pertencimento crescendo em seu peito tão grande que a medida em que o tempo passava ficava mais e mais difícil de desenvolver uma analogia entre os fatos propostos em sua mente.
  Não sabia muito bem como defini-los. Não sabia se havia como. Apenas acordara no meio de uma noite se sentindo incompleta com o reflexo de tanta pouca personalidade tão perto de tanta personalidade. Não se achava. Não se reinventava. Não se encontrava. Não se permitia. Não se mudava. Por que? A resposta já fora leiloada a algum tempo.
  Aquele meio da noite lhe fez lembrar de um planejamento sobre o futuro já guardado entre milhares de papéis na gaveta. As coisas não acabam sendo como planejamos e não se deixe enganar... sonhos são sem dúvida mais bonitos. Com 6, ela se imaginava com 13 fazendo coisas que não fizera. Com 13, ela se imaginava com 16 fazendo coisas que não fizera. Com 16, ela se imagina com 18 fazendo coisas que não fizera. Aos 18, ela se imaginava com 23 fazendo coisas que não sabia se faria. Amanhã já era 23. Faltavam menos de 24 horas e a esperança defasada se encontrava em estado de paralisia. 
  Uma lágrima indecente cortou o rosto da moça no meio da noite fria e como se fosse navalha, cortou seu coração. A decepção de si mesma aumentara ao passar dos anos e não por culpa de problemas familiares, como imaginara que fosse... Nem por razões de coração partido, como temia. A decepção de sua vida se deitava sobre seu próprio espírito fraco. A terra de seus sonhos não lhe traziam conforto. Não lhe faziam cafuné. A mocinha com pouco mais de 20 horas a completar 23, não se lembrava se tinha nome. O nome desaparecera imerso na multidão de planos fracassados. Queria fazer algo a respeito. Queria levantar daquela cama fria e terrosa e realizar um plano anteriormente feito. Queria mesmo. Queria com todo o coração. 
  Porém, bem... o coração não se é grande suficiente para a operação. 

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