segunda-feira, setembro 22, 2014

Rascunho.


Me compreendo entre a metade do inteiro e o inevitável eu. Não compreendo, no entanto, a  compreensão na qual me designo feito incompleto e sem vergonhas da minha "incompletividade". Desde pequeno entendi, não entendendo muito bem, a mocidade do rabisco... Tão indeciso sobre o que queria ser mas ao mesmo tempo tão ríspido e nítido e numa maravilhosa infinidade de possibilidade, assemelhando-se a células troncos. Obviamente, nos meus tempos de infância, o conhecimento sobre células troncos não me era dado suficiente para realizar tal comparação mas desde já eu as invejava. Hoje, sou um rabisco assim como um dia o vi. Mas o rabisco de mim se aponta em uma direção não amigável e um tanto árdua. O papel tá acabando e a "incompletividade"ainda tá ali, plausivelmente inútil, rindo da minha cara de um jeito manso que sugere que o tempo já foi perdido demasiado. Será que vou conseguir? Será que Deus vai conseguir? Será que alguém consegue? Oras, não pode ser tão complicado! Preencha o espaço em branco... Tão cheio de espaço vazio e de linhas tortas, cores erradas e manchas que parecem ser feito com lágrimas. A imagem me remete a tempos do pulmão de um fumante. É nebuloso, sobre qualquer clima. Aquela imagem construída sobre barulho da capital paulista, suco diluído e infância em excesso. As vezes pergunto-me qual a finalidade e por alguns segundos, me sinto sufocar por um ataque de pânico eminente. O lixo mora ali pertinho, abrigando vidas breves demais. O lixo daquele coração não mais inocente, por sua vez, se recusa infimamente a sair e se impõe com pé firme na questão arbitrária do Eu Inteiro. Eu pelas metades, pelos cantos, adulto demais pra ignorar a feiúra que reina no rabisco, mas criança demais para poder fazer realmente algo a respeito. Essa injúria me foi imposta sem perguntas e sem consentimento o que eu, pessoalmente, decidi entender como crime. A falta de alimento já vem me doendo, a falta de mim já me doeu o bastante. Mais próximo do fim do que do começo, não sei muito bem o que faço com tanto a fazer. Já correu tempo demasiado mas ainda é bebê... O trânsito propõe que não há tempo para tantas escolhas, tantas escolhas atrasadas... Empurradas sem muito contato pelos antecedentes. A cena é cínica e não transmite nenhum tipo de tranquilidade, reinando o caos. 
- Decida-se, garoto - Diz aquela voz zombante e fria. - Ninguém mais olha por você por aqui. 
Ele se decide. Decide por não transformar o desenho em algo completo. Complexo demais. Já que o fim é mais fácil, para quê lutar com o talvez, os intermináveis problemas financeiros, as cobranças, o amor - que não se mostrou sincero em 90% das vezes -, a vida prematura no lixo? Não.
A "incompletividade" permacerá.

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